Asterismo // Dispositivo Móvel para Ações Compartilhadas: Residência Internacional — 2015

(Esse post deveria estar aqui ao fim da primeira semana de permanência na JA.CA, mas por motivos maior – procrastinação, devaneio e dúvida – somente agora consegui sentar e iniciar sua publicação e está em construção)

Fui selecionada para passar dois meses (15-06 a 15.08.2015) na JA.CA – Centro de Arte e Tecnologia, durante a segunda temporada do Dispositivos Móveis para Ações Compartilhadas: Residência Internacional – 2015  com Asterismo, uma das variações desse projeto que venho desenvolvendo desde 2013, o D.K.A. (Desenhador Kósmiko Artesanal).

A proposta de Asterismo, é a construção de um aparelho para registro manual de partes da esfera celeste, depois com esse registro concluir um tipo de cartografia estelar própria e assim produzir um manuscrito referente aos agrupamentos de estrelas que consegui visualizar durante o período de residência. Além da estrutura, verba, espaço e orientações/acompanhamentos para inventar+montar+experienciar mais um artefato para a série D.K.A., a residência ainda disponibiliza uma Kombi para uso dos residentes. Uma Kombi. Uma Kombi amarela que me deixou tão eufórica que nem consegui fazer uma foto – até por que penso que a fotografia não seja mais capaz de representar determinadas coisas e a JACombi é uma delas – decidi que criar uma imagem como a melhor forma de apresentá-la:

jaca

Quando propus Asterismo na convocatória, tive como intenção montar um laboratório circulante e usar o veículo como transporte para locais de observação mais distantes da JA.CA, claro que chegando ao Jardim Canadá comecei a repensar o projeto, todas as milhões de possibilidades que eu poderia experimentar, tudo o que eu poderia gerar na população local e tudo aquilo que passa na cabeça de artista quando tem tempo e material para fazer coisas. Depois de quatro semanas ruminando, decidi pelo projeto original. Simples, dinâmico e sutil.

É claro que as mudanças de percurso do projeto inicial que tive durante as quatro primeiras semanas de residência, se não foram interessantes ao ponto de me decidir por elas para o resultado da JACAxperiência, me serviram para uma auto análise de minhas práticas artísticas e intenções sobre o que realmente quero fazer do meu trabalho como artista plástica. Mas não cabe aqui revelar. A única coisa que digo é: não mais ensaiar e projetar tanto qualquer objeto que eu faça daqui para adiante.

Eu não consigo entender de onde vem esse vício de permanecer num transe meditativo e idealizador sobre o próprio trabalho. Parece coisa de burocrata.  Fixa dentro das ideias enquanto Jardim Canadá -um objeto absurdo de vivência – lá fora. Como uma nova perspectiva de minha passagem na residência, Fabíola Moulin em umas das visitas de acompanhamento, propôs saídas e permanências com meus aparelhos pelas ruas do Jardim Canadá.  O que de início me pareceu assustador, imagina eu com um cabeção de papelão bicudo de lentes parada numa praça buscando a Lua:

“olhão”

A sugestão/provocação da Fabíola, de que aqueles objetos – que eu estava apenas projetando e ensaiando dentro da JA.Contêineres – poderiam ser inseridos dentro do contexto local, através de aparições estranhas e permanências vagas, seria como um atravessamento e e quem sabe a possibilidade de não apenas observar, mas também ser observada e assim criar uma livre troca de percepções entre nós (moradores e eu).  Uma das coisas que pensei é que, se eu vim até aqui para observar e inventar astronomia de ficção e suas extensões no plano-Terra, também fazer desses objetos pequenas lendas situadas no Jardim Canadá não seria uma forma de inserir mais histórias à essa área? (Pausa para pensar o conceito de História). Se estou estudando a criação das visões sobre um todo (Cosmovisão) que existem dentro de determinadas áreas (pequenas cidades, comunidades e bairros), ao inserir um componente novo dentro desse espaço, de duas uma: estou invadindo ou elaborando aquele lugar? Talvez a conclusão venha apenas quando estiver em SP de novo.

Xistófer, o outro residente, tem me passado vários links sobre cosmos e Sun Rá é um deles. Estou em transe com Sun Rá, lembro da Leila Lopes falando sobre Afrofuturismo em um dos encontros do MSST e pensado como devem tanto à essa gente não legitimada e enquadrada na perspectiva da Arte Contemporânea.

(CONTINUA – Pensar na eleição dos materiais encontrados na rua; os outros residentes; Aulas de Cerâmica no CAC; visitas ao ACH – e a ideia do espaço cultural fora do eixo Arte Contemporânea; novo projeto para a KOMBI; projetos jogados fora… )

NOTASNOTASNTASNOTASNOTASNOTASNOTASNOTASNOTASNOTASNOTASNOTASNOTASNOTA

– Dia 1: Cheguei ao Jardim Canadá, contêiner gourmet; O bairro, isolado frio David Lincho; A ideia de respiro visual que realmente existe ou é projeção da sua cabeça; A primeira semana adaptação e explanação; Primeira noite me perdi e foi triste, Walter Benjamin me surraria por estar mais preocupada com meu celular do que com minhas próprias percepções, um lobisomem devia ter me comido;

Durante o dia vc percebe que o Jardim Canadá parece anular a noção do tempo; Passado Futuro; abundância e carência; a perspectiva clara de um projeto Brasil de progresso que agoniza e se confunde;

Dia 2: Andar e olhar; casa e gente; loja de carros importados e mineiradora e tratores e cães de rua, tudo num mesmo lugar em movimento; Júpiter e Vênus começam sua dança;

Dia 3: Disparidades: Galeria X CAC

Dia 4: Primeira ida à BH e arrependida por não trazer Certeau; Feliz por não ter trazido Certeau e ter tempo de ler Sontag.

Dia 5: olhando a tal arte e pensando em ilusão e imaginário e especulação;

Dia 6: Ideia de fazer um bunker de baixo da terra onde vou fazer uma exposição de todos esses aparelhos astronômicos e depois enterrar o bunker e todos os aparelhos pra que nunca mais sejam vistos;

Dia 7: Essa é a última vez que venho ao Verdemar;

Dia 8: No Verdemar escuto sobre a super qualidade dos “Outlet” em Miami.

Dia 9: Primeira aula de polonês: Dzien´Dobry (bom dia)

Dia 10: Pensar em constelações em perspectiva que provem alguma coisa que ainda não sei; O ponto onde as estrelas se tocam tem o quê?

Dia 11: Uma caixa de ferramentas; régua com medida de meus dedos; minhas medidas.

Dia 12: Pensando sobre artesanato; não somente técnica, moldar a sutileza do silêncio (daquilo que está gritando na cabeça mas para nos dentes); O depoimento da viajante solitária;

Dia 13: BH – Museu de Artes e Ofícios; Elogio ao trabalho, principalmente à quem dá a mão de obra, para que nunca desista de servir. “o barco é feito assim , todo torto para ficar direito na água” carpinteiro naval; não tinha ideia que os tropeiros usavam lunetas; copiando dobradiças antigas; vendo “Oratório Bala” e pensando em montar um objeto luneta para ver a Lua no Zênite.

Dia 14: lembrar que “Ofício” é empregar ânimo em um objeto;

Dia 15: BH – exposição de Sebastião Salgado, de tão bonita a fotografia ela me aliena, a pessoa passa fome na foto , estou confortável por apenas olhar.

Dia 16: 19hs, vou para a praça quatro elementos, sento na mureta, garotos me olham, eu olho a Lua, a Lua olha eles; praticamos uma triangulação ótica perfeita com nossas consciências secretas;

Dia 17: Aprender na vivência, mesmo que estoure seus filtros;

Dia 18: Montar todo um aparato, construir e pensar o dia inteiro e usar por apenas um segundo à noite;

aparelho horizonte b aparelho horizonte atelier braço b braço índice austral b índice austral uso índice austral régua tripé avenida montreal 2 tripé avenida montreal tripé conteiners tripé massey tripé no rola moça

Rural Scapes – #labRes2015

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E.A.E.#01 – Série D.K.A.

Especulações Áudio Estelares da série D.K.A. (Desenhador Kósmiko Artesanal), é um projeto para construir e experimentar cartografias celestes particulares. Usando um aparelho artesanal para registrar graficamente o céu noturno e convertendo pontos visuais em sons através de pequenos geradores de ruídos (osciladores e micro sintetizadores), intento pela invenção de um vocabulário próprio para cada constelação, asterismo ou aglomerado que foi mapeado e assim observar outro tipo de representação das estrelas.

A feitura de E.A.E.#01, se deu durante minha participação do labRes2015 na residência Rural Scapes. Partindo de desenhos e rascunhos mentais do que eu poderia experimentar durante o tempo de permanência na Rural Scapes, pude montar um aparelho e usá-lo (D.K.A. – Peça 02) e ainda experimentar uma composição líquida para usar em circuitos eletrônicos analógicos.

Tinta condutiva à base de gema de ovo caipira e grafite
Tinta condutiva à base de gema de ovo caipira e grafite

O aparelho captador de formações estelares é bem simples, parecido com um cavalete constituído de um bastidor onde é fixada uma transparência de pvc, serve como um quadro do céu noturno. Nesse quadro, usando caneta marca texto, após escolher um ponto de observação são feitas anotações do céu noturno.  Após a coletar os pontos, a transparência serve como uma máscara para repassar à um papel os desenhos que são produzidos alí.

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No caso de E.A.E.#01, as anotações são para constituir um tipo de desenho que será convertido em pontos de toque para o aparelho de ruídos. Usei para primeiro projeto um circuito bem simples e conhecido, o Drawdio 555. Nessa experiência o E.A.E.#01, resultou um tipo de teclado musical.

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É claro que não fui para o labRes2015 apenas para ficar olhando estrelas no céu e fazer essa coisa lindinha que você está vendo, na minha proposta também preparei algumas atividades com estudantes de São José do Barreiro. A atividade proposta foi Céu Aberto, misto entre palestra-oficina com duração de 9 horas, ocorreu entre os espaços culturais da cidade de São José do Barreiro e a Fazenda de Santa Tereza (sede RuralScapes).

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Uma das coisas que me interessam nesse tipo de atividade é a possibilidade de um desvio no câmbio de saberes, é comum entre artistas tratarem suas poéticas sempre sobre a perspectiva de toda a práxis dentro da Arte Contemporânea. Durante as “aulas” com estudantes de variadas idades e singularidades culturais, geralmente ocorrem pequenas epifanias e sínteses correspondente ao objeto de estudo daquele momento.

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(continua)

20 dias passados

Entre fevereiro e março de 2013 fui para a ecovila Terra Una participar de uma residência artística. Aqui está o catálogo e ainda não sei quando vou continuar ou mostrar mais coisas de CAMPANHA.

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Uma das decisões que tomei foi a de não ser mais a projetista capricorniana da vida e só trabalhar em uma peça/objeto/estudo de arte por vez.

Economizar no compartilhamento de epifanias e valorizar um sentimento de auto preservação para os próximos tempos.

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Essa semana sigo para Rural Scapes e lá inicio a fase de catalogação de ruídos cósmicos. Essa parte de D.K.A. estou chamando de Especulações Áudio Estelares, tenho pensado em como indicar ruídos para as estrelas e também mais alguma coisa que eu não sei direito o que é.

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